Do desafio de planejar – inclusive na crise

Por Lilian Mallagoli

Li outro dia que planejar não é preciso – é necessário, mas está longe de ser preciso. Não nomeio o autor da ideia porque não sei, mas é bem isso: não há trabalho bem feito, especialmente olhando para a comunicação, sem planejamento e, ao mesmo tempo, ele está longe de ser uma tarefa exata. Quanto mais se faz, mais se tem a fazer.

Isso porque os processos são vivos. Olhamos primeiro para os objetivos maiores, que precisamos alcançar em médio e longo prazos, e aí vamos afunilando, pensando o próximo bimestre, o próximo mês, a próxima semana. Esses grandes objetivos acabam polvilhados em ações diárias, que temos que rever e repensar continuamente.

Então, todo dia é dia de planejar de novo, refazer, repensar, reiniciar se for preciso. A ação que pensamos lá atrás para amanhã pode ter que ser alterada sem grandes avisos, pelo dinamismo dos mercados, das pessoas, da vida. E isso tudo em um ritmo normal, regular, digamos. Pense então no que é fazer um planejamento saudável vivendo-se em uma crise…

Planejamento em linha reta?

Estamos numa crise sanitária, econômica e, especialmente no Brasil, política. Não é fácil; os dias parecem mais longos quando estamos cansados da mesmice, ou mais curtos quando temos tanto há fazer, e o relógio nos trata com sarcasmo.

Aqui, temos as tarefas diárias para fazer a comunicação de tantas empresas e profissionais girar. E as interferências são inúmeras, constantes e recorrentes.

Quando falo ‘interferências’, não é no sentido negativo, é apenas para mostrar que não há como cumprir um planejamento em linha reta. Você pensou numa ação de comunicação ou marketing para hoje, mas é possível que ela vai não saia como o previsto: ou porque chegou um tema urgente para ser explorado, ou porque o cliente teve uma mudança de necessidade para aquele momento, o clima mudou e afetou a lavoura, os preços caíram, ou subiram, quem confirmou não virá mais, quem não respondeu, apareceu de surpresa, o diretor decidiu que sim, que não, o técnico se demitiu… São tantas variáveis, tantos fatores que influenciam no nosso trabalho que é melhor nem listar muito.

Bom, mesmo, é se preparar.

Organização cirúrgica

Esse processo de repensar, refazer, encaixar tanta atividade em um calendário que parece espremido pode se tornar extremamente exaustivo se não houver organização – e, nesse ponto, sou chata: é preciso organização cirúrgica, que olha para os detalhes, para todas as necessidades e estruturas para se colocar uma ação em pé.

Fez às pressas? Vai dar errado. Fez para tirar da frente? Vai dar errado. Fez de má vontade? Fez reclamando? Fez querendo matar um?

Vai dar errado e vai se refletir nos resultados: não fica tão bonito, nem inteligente, nem cativa. Comunicação que não fala direito com quem precisa não devia ser feita – nem comunicação é. Não faça de qualquer jeito, pois ninguém merece isso, nem você, seu cliente ou seu trabalho.

Respire fundo, tenha paciência e recomece de onde for preciso, com calma e organização. Por mais que surjam mudanças de rota e imprevistos, quanto mais preparado você estiver, menores serão os retrabalhos. Então, desde o começo, abuse de calendários, listas, prioridades, agendas, ferramentas que não ficaram velhas com as inovações tecnológicas que chegaram, ao contrário. Elas se adaptaram – a agenda é online, as listas te enviam alertas. Aproveite isso!

O dom da adaptação

E se as ferramentas se adaptaram, por que não a gente? Aliás, acabo de me arrepender do que escrevi: será a capacidade de se adaptar um dom?

Um dom é algo que desempenhamos de forma natural, sem grade esforço. Se adaptar não pode ser só isso, deve ser algo que possamos treinar e aprender, assimilar cada vez mais. Nos tornamos mais flexíveis e abertos às mudanças é bom para nossa saúde inclusive mental, e para os resultados no trabalho. Aliás, para os resultados na vida como um todo.

Acho que nosso grande desafio nesse cenário de planejar e, simultaneamente, viver o planejamento é fugir da linha reta, é saber seguir as curvas, mas sem tombar pelas beiradas. Aceite a mudança, e tome conta novamente do cenário, com firmeza, vontade e organização, e então você estará mais preparado para as novas mudanças, inevitáveis.

E que bom que é assim.